Era para ser o primeiro passo de um grande universo compartilhado, mas o ambicioso remake norte-americano de Round 6, capitaneado por David Fincher, foi engavetado pela Netflix antes mesmo de sair do papel.
O projeto, conhecido internamente como Heckler, prometia transportar os jogos mortais da série sul-coreana para cenários dos Estados Unidos, com roteiro de Dennis Kelly (Utopia) e possíveis aparições de estrelas de Hollywood. Agora, tudo virou fumaça — e há motivos estratégicos por trás dessa decisão.
Os bastidores do cancelamento
Um reboot que começou como brincadeira de gente grande
Boatos sobre um “Round 6: USA” circulavam desde 2022, quando listagens de produção apontavam Los Angeles como base das filmagens. A ideia era repetir o sucesso global do original, mas em inglês, mirando um público que ainda torce o nariz para legendas. Fincher, responsável por sucessos como Mindhunter e Clube da Luta, entraria com sua assinatura sombria e obsessiva por detalhes.
Executivos enxergavam potencial para transformar a marca em franquia multinacional, com versões locais em vários países. O suposto cameo de Cate Blanchett como recrutadora no fim da primeira temporada de Round 6 alimentou a teoria de um multiverso violento e recheado de celebridades. Entretanto, documentos internos apontam que a atriz nunca esteve de fato atrelada ao spin-off.
Segundo fontes próximas ao streamer, tudo parecia bem encaminhado: roteiros iniciais prontos, orçamento estimado de nove dígitos e negociação de locações no Reino Unido, onde os custos de produção são competitivos. Foi aí que a maré virou.
Heckler: mudanças de rota e o peso da estratégia de franquias
Em 2023, a alta cúpula da Netflix passou por trocas de cargos e revisou prioridades. O desempenho irregular de derivados, como o reality Round 6 – O Desafio, que despencou 80% em audiência na segunda leva de episódios, serviu de alerta. Em vez de concentrar os investimentos em um único remake bilionário, a plataforma passou a avaliar adaptações regionais menores, voltadas a mercados específicos.
Outra pedra no caminho foi o cronograma de Fincher. O diretor assumiu a produção de um longa sobre Cliff Booth (personagem de Era Uma Vez em… Hollywood), atrasando qualquer chance de iniciar Heckler até 2026. Para um serviço que vive de lançamentos frequentes, esperar tanto tempo se tornou inviável, e o projeto foi oficialmente descartado em abril deste ano — notícia confirmada em off a NoNetflix.
A partir daí, a ordem é diversificar: em vez de um Squid Game Cinematic Universe unificado, o streaming quer testar versões locais, como um possível Round 6 França, caso os estudos de viabilidade apontem retorno rápido.
Imagem: Netflix
O que vem aí para David Fincher
Cliff Booth: o reencontro com Brad Pitt
Com o spin-off de Round 6 fora de cena, Fincher concentra esforços no longa ainda sem título que retoma a vida de Cliff Booth após os eventos do filme de Tarantino. O roteiro, também assinado pelo cineasta vencedor do Oscar, coloca Brad Pitt outra vez na pele do dublê mais cool de Hollywood.
As filmagens ocorrem em locações na Califórnia e na Espanha, com previsão de estreia simultânea nos cinemas e na Netflix no fim de 2024. A aposta é grande: insiders falam em um orçamento de US$ 120 milhões, valor que colocaria o título entre os mais caros do catálogo e reforçaria a parceria de longa data entre o diretor e a plataforma.
Projetos na fila: Chinatown e Bitterroot
Terminado Cliff Booth, Fincher tem opções de sobra. Uma delas é a minissérie prelúdio de Chinatown, escrita por Robert Towne, que acompanha uma versão jovem de Jake Gittes nos becos de Los Angeles dos anos 1930. O criador já manifestou interesse em escalar Tom Pelphrey (Ozark) para o papel principal, mas o sinal verde ainda depende de ajustes orçamentários.
Outra possibilidade é Bitterroot, faroeste criminal baseado no livro de James Lee Burke. A trama seguia parada desde 2021, mas voltou a ganhar força depois que O Assassino mostrou que thrillers adultos podem performar bem no streaming. Caso avance, o longa deve ser rodado em Montana, mesclando violência estilizada e paisagens naturais de tirar o fôlego.
Enquanto isso, os fãs de Round 6 aguardam a segunda temporada coreana, prevista para o segundo semestre. Resta saber se a Netflix conseguirá traduzir o fenômeno sem esvaziá-lo em um mar de derivados — e se Fincher, mestre em subverter expectativas, voltará a dar as cartas em algum jogo mortal no futuro.
